Mineração urbana é a recuperação de metais e outros materiais presentes em produtos descartados, principalmente eletroeletrônicos, para que voltem à indústria como matéria-prima. Em vez de tirar o minério do subsolo, ela trabalha com o que já foi extraído, fabricado, usado e jogado fora. Desde setembro de 2026 o termo está na lei brasileira: a Lei 15.506/2026, que criou a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, inclui a mineração urbana entre as atividades que a política pretende estimular.
O que é mineração urbana
Mineração urbana é o conjunto de processos que transforma resíduos em fonte secundária de metais. A Agência Senado resumiu o conceito na cobertura da sanção da nova lei como “a recuperação de minerais e metais presentes em resíduos e produtos descartados, como celulares, computadores, baterias e outros equipamentos, para que possam ser reaproveitados”.
A diferença para a mineração convencional está na origem do material. A mina tradicional abre cava, remove rocha e processa grandes volumes de minério para extrair uma fração pequena de metal. A mina urbana está nas gavetas, nos depósitos das empresas, nos pontos de coleta e nos aterros. O metal já passou por uma primeira extração e está concentrado em placas de circuito, cabos, baterias e ímãs.
O Centro de Tecnologia Mineral (CETEM), ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, usa exatamente essa expressão no projeto RECUPER3, o diagnóstico mais amplo já feito sobre a cadeia de resíduos eletroeletrônicos no país: os estoques de equipamentos descartados são “minas urbanas”, fontes secundárias de insumos que o Brasil ainda não aproveita.
Quais materiais a mineração urbana recupera
Um equipamento eletrônico descartado reúne metais comuns, metais preciosos e minerais considerados críticos. Os principais são:
- cobre, alumínio e ferro, presentes em cabos, carcaças e estruturas;
- ouro, prata e paládio, concentrados em placas de circuito e conectores;
- lítio, cobalto e níquel, nas baterias recarregáveis;
- terras raras, em ímãs de motores, alto-falantes e discos rígidos.
Os plásticos e o vidro também voltam para a indústria, mas o que dá à mineração urbana o nome de mineração é o metal.
Como funciona a mineração urbana, etapa por etapa
A mineração urbana tem cinco etapas, e cada uma é feita por um tipo diferente de operador:
- Coleta. O equipamento sai da casa, da empresa ou do ponto de entrega e entra num fluxo formal, com registro de origem e peso.
- Triagem. O que pode ser consertado ou reaproveitado é separado do que vai para reciclagem.
- Desmontagem. Baterias, placas, cabos, plásticos e partes metálicas são retirados e separados por tipo.
- Trituração e concentração. Placas e componentes são moídos e divididos em frações mais ricas em metal.
- Refino. A fração concentrada passa por processos metalúrgicos que extraem o metal em grau industrial.
No Brasil, as quatro primeiras etapas acontecem em escala, feitas por recicladores licenciados. A quinta ainda não. O país não tem hoje capacidade industrial de fundição dedicada a placas eletrônicas em volume, e boa parte do material concentrado segue para refinarias no exterior. É esse elo que a política de minerais críticos quer atrair para o território nacional.
Quanto lixo eletrônico o Brasil gera
O Brasil gerou 2,44 milhões de toneladas de resíduos eletroeletrônicos em 2022, o equivalente a 11,4 kg por habitante, segundo a ficha do país na Global E-waste Statistics Partnership, iniciativa da União Internacional de Telecomunicações (UIT) e do Instituto das Nações Unidas para Treinamento e Pesquisa (UNITAR). É o maior volume da América Latina.
Desse total, 79 mil toneladas foram formalmente coletadas. São 3%. No mundo, a parcela documentada como coletada e reciclada de forma adequada foi de 22,3% em 2022, e os materiais contidos no lixo eletrônico gerado naquele ano valiam cerca de US$ 62 bilhões, de acordo com o Global E-waste Monitor 2024.
O gargalo da mineração urbana no Brasil está na coleta
O principal obstáculo da mineração urbana no Brasil é que o material quase nunca chega ao fluxo formal. Os 97% que não aparecem nos registros de coleta não desaparecem: parte fica guardada em casa ou em almoxarifados, parte vai para o lixo comum, parte circula por canais informais onde ninguém sabe o que foi recuperado nem para onde foi o resto.
Isso muda a ordem da conversa. Refinaria, crédito fiscal e processamento local dependem de matéria-prima em volume constante e com origem conhecida. Sem coleta rastreada, não há o que refinar, com ou sem incentivo. Por isso, a Circular Brain defende que a mineração urbana começa antes da indústria: na conscientização de quem descarta e na ampliação dos pontos de coleta.
O que muda com a Lei 15.506/2026
A Lei 15.506, sancionada em 16 de setembro de 2026 a partir do PL 2.780/2024, põe a mineração urbana dentro da Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, ao lado de pesquisa, lavra, beneficiamento e transformação mineral. Três pontos interessam a quem trabalha com resíduos eletroeletrônicos:
- Incentivo. O Programa Federal de Beneficiamento e Transformação de Minerais Críticos e Estratégicos (PFMCE) poderá conceder até R$ 1 bilhão por ano em créditos fiscais entre 2030 e 2034 a empresas que façam beneficiamento, transformação mineral ou mineração urbana no país.
- Rastreabilidade. A lei cria um sistema para registrar origem, composição e trajeto dos minerais, sob supervisão da Agência Nacional de Mineração.
- Regulamentação. Quase tudo ainda depende de regras a serem definidas pelo Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos (CIMCE), criado pela mesma lei.
Na prática, a lei sinaliza que o metal recuperado do lixo eletrônico passa a contar como insumo estratégico. Para que isso vire volume, a cadeia vai precisar provar de onde veio cada lote.
Onde entra a rastreabilidade
Rastreabilidade, na mineração urbana, é saber quanto material foi coletado, por quem, em que condição e para qual reciclador foi encaminhado, com documento em cada etapa. É o que permite a um fabricante comprovar suas metas de logística reversa e, a partir da nova lei, o que deve permitir comprovar a origem de um mineral recuperado.
A Circular Brain não recicla nem refina. A empresa desenvolve e opera a Plataforma Circulare, sistema que registra cada movimentação de resíduos eletroeletrônicos entre quem descarta, quem transporta e quem recicla. Em 2025, 83.477 toneladas de resíduos processados pelos operadores da rede passaram pela Plataforma Circulare, alta de 53,45% sobre 2024, com 66 recicladores parceiros, segundo o Relatório de Sustentabilidade 2025 da Circular Brain.
Empresas que querem participar da cadeia podem começar pelo descarte corporativo de eletrônicos ou, no caso de fabricantes e importadores, pela logística reversa de eletrônicos.
Não há ponto de coleta na minha cidade. E agora?
Quem quer levar um equipamento para a mineração urbana precisa, antes de tudo, colocá-lo no fluxo formal. A rede Circulare tem mais de 17 mil pontos de entrega voluntária espalhados pelo país, que podem ser consultados na página de Eletropontos.
Onde não há ponto de entrega, o envio pode ser feito pelos Correios. O consumidor pode enviar, gratuitamente, eletrônicos de até 30kg. Para isso, coloque os equipamentos em uma caixa, que possa ser aberta, e leve ao Balcão do Cidadão na agência da sua cidade. Lá, é só preencher um formulário rápido e o descarte está feito.
Para eletrodomésticos grandes, acima de 30 kg, existe a coleta domiciliar. Em 2025 foram 2.099 coletas desse tipo, média de 175 por mês. Ela também é gratuita!
Perguntas frequentes sobre mineração urbana
Mineração urbana e reciclagem são a mesma coisa?
Não exatamente. Reciclagem é o nome geral para devolver qualquer material descartado à produção. Mineração urbana é o recorte da reciclagem voltado à recuperação de metais e minerais, principalmente de eletroeletrônicos, baterias e veículos em fim de vida. Toda mineração urbana envolve reciclagem, mas nem toda reciclagem é mineração urbana: reciclar papelão, por exemplo, não é.
O Brasil já faz mineração urbana?
Sim, em parte. Coleta, triagem, desmontagem e concentração de metais acontecem no país, feitas por recicladores licenciados. O refino das placas eletrônicas, etapa que extrai ouro, prata e cobre em grau industrial, ainda é feito majoritariamente no exterior, porque o Brasil não tem capacidade de fundição dedicada em escala.
A lei de minerais críticos vale para o lixo eletrônico?
Sim. A Lei 15.506/2026 inclui a mineração urbana no escopo da Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, e a cobertura oficial do Senado cita celulares, computadores e baterias como exemplos. As regras de incentivo e de rastreabilidade ainda dependem de regulamentação pelo CIMCE.
Por que o Brasil coleta tão pouco lixo eletrônico?
Porque falta informação para quem descarta e ponto de coleta perto de quem quer descartar, e porque o descarte informal não aparece em nenhuma estatística. Segundo a Global E-waste Statistics Partnership, só 3% do lixo eletrônico gerado no Brasil em 2022 foi formalmente coletado.
Como uma empresa pode participar da mineração urbana?
Destinando seus equipamentos por um canal formal e rastreado, com documento que comprove a destinação. A Circular Brain atende empresas que precisam descartar equipamentos de TI e fabricantes que precisam cumprir metas de logística reversa, com registro de cada etapa na Plataforma Circulare.